9 de setembro: a Apple aposta um iPhone de US$ 2.500 na estreia do primeiro CEO em 15 anos.
Dia 9 de setembro, a Apple realiza o evento “Surprise and Shine”, em Cupertino. Na superfície, é só mais um lançamento de iPhone de setembro, como a empresa faz há quase quinze anos. Só que esse, especificamente, carrega dois pesos que nenhum outro evento recente carregou ao mesmo tempo: é a primeira grande apresentação de produto sob um CEO novo, e é a maior aposta de hardware da empresa desde o iPhone X.
Como publicitário, é esse cruzamento mudança de liderança acontecendo bem no palco onde a marca sempre contou a própria história que eu acho mais interessante de analisar do que a especificação técnica em si.
O fim de uma era de 15 anos?
Em abril de 2026, a Apple anunciou que Tim Cook deixaria o cargo de CEO pra se tornar Presidente Executivo do Conselho, com John Ternus assumindo como CEO a partir de 1º de setembro de 2026 literalmente dias antes desse evento. Cook liderou a empresa por 15 anos, sucedendo ninguém menos que Steve Jobs. Ternus, até então chefe de engenharia de hardware, é quem vai subir ao palco pela primeira vez como principal executivo da companhia, apresentando o produto mais arriscado da história recente da marca.
Não é força de expressão dizer que esse evento é, ao mesmo tempo, um lançamento de produto e uma cerimônia de posse.
O que deve ser lançado?
Segundo a cobertura especializada, a linha de produtos esperada é a mais ambiciosa em anos:
- iPhone 18 Pro e Pro Max, com o novo chip A20 Pro em processo de 2 nanômetros, prometendo câmera Face ID sob a tela e, no Max, uma câmera com abertura variável pra efeito bokeh mais natural.
- iPhone Fold o primeiro iPhone dobrável da história, com tela interna de cerca de 7,8 polegadas em formato livro e tela externa de 5,3 polegadas. É o primeiro novo formato de iPhone desde o iPhone X, lançado em 2017.
- Apple Watch Series 12, com atualização mais modesta novo sensor de saúde na pulseira, sem redesenho grande.
- Rumores de atualização em produtos de casa inteligente HomePod mini, Apple TV 4K com Siri renovada, e um possível novo hub doméstico com tela.
- iPad mini 8, com tela OLED e chip atualizado.
A aposta mais cara (literalmente) da história da marca.
O detalhe que mais chama atenção, do ponto de vista de posicionamento de marca, é o preço. Rumores apontam o iPhone 18 Pro custando até US$ 300 a mais que a geração anterior atribuído, entre outros fatores, a uma crise global de memória que está pressionando custo de componente na indústria inteira. Já o iPhone Fold é esperado como o iPhone mais caro já vendido, com estimativas entre US$ 2.000 e US$ 2.500.
Pra uma marca que historicamente define categoria de preço no mercado de smartphone, isso não é só ajuste de tabela é uma declaração de posicionamento. A Apple está apostando que existe demanda relevante disposta a pagar o dobro (ou mais) do preço de um iPhone tradicional por um formato novo, numa categoria o smartphone dobrável que a concorrência asiática já testa há alguns anos, com resultado misto.
Por que isso é tanto teste de marketing quanto de engenharia?
Todo evento da Apple é, historicamente, uma peça de storytelling tão cuidada quanto qualquer campanha publicitária tradicional o próprio nome do evento, “Surprise and Shine”, já é escolha de comunicação, não coincidência. Mas esse ano tem uma camada extra: é a primeira vez que alguém além de Tim Cook define o tom dessa narrativa em uma década e meia.
O risco de qualquer transição de liderança numa marca com identidade tão forte é a comparação inevitável não é sobre John Ternus ser competente tecnicamente (ele vem justamente da engenharia de hardware, área tecnicamente mais preparada possível pra esse momento), é sobre se ele consegue manter a mesma capacidade de fazer o público sentir que aquele produto é indispensável, algo que Steve Jobs definiu e Tim Cook manteve, cada um com estilo diferente.
Historicamente, a própria transição Jobs e Cook em 2011 foi observada com o mesmo tipo de ceticismo “sem o fundador carismático no palco, a magia acaba” e Cook respondeu não tentando imitar o estilo de Jobs, mas construindo a própria narrativa em cima de execução, cadeia de suprimentos e expansão de serviço. Vale acompanhar se Ternus vai tentar repetir alguma fórmula anterior ou construir um tom de comunicação próprio desde já.
Esse evento provavelmente vai ser lembrado por dois motivos, e o menos importante deles é a especificação técnica do iPhone Fold. O motivo mais relevante é observar como uma marca que constrói identidade em cima de storytelling consistente lida com a mudança de quem conta essa história bem no momento em que também está pedindo ao consumidor o maior salto de preço já visto na linha. Se a Apple conseguir vender a narrativa de “nova era, mesma confiança” com a mesma eficácia de sempre, o preço alto vira detalhe. Se não conseguir, nem o produto mais inovador em anos vai salvar a percepção do momento.
