ARTIGO

A conta da bolha de IA chegou antes do retorno e o Google teve o pior pregão da própria história.

Há algumas semanas escrevi aqui sobre a tensão entre FOMO e medo de bolha no mercado financeiro o mesmo investidor querendo entrar mais no rali de IA e, ao mesmo tempo, com medo de entrar mais. Na época, era desacordo e sinal técnico sutil. Essa semana, parte dessa tensão virou número duro, e vale atualizar o quadro, porque não é mais só opinião dividida é balanço trimestral de verdade batendo na mesa.

O pior pregão da história do Google.

Na quinta-feira passada, ações da Alphabet (dona do Google) caíram cerca de 13% num único dia o pior desde o IPO da empresa, em 2004, apagando aproximadamente US$ 500 bilhões em valor de mercado. O motivo não foi prejuízo: foi desaceleração. A receita de anúncio de busca cresceu 12% no trimestre, abaixo do esperado pelo segundo trimestre seguido, numa curva que vinha de 19% no primeiro trimestre do ano e 17% no segundo. Ao mesmo tempo, o volume de busca cresceu no ritmo mais rápido em cinco anos  ou seja, mais gente usando o produto, só que a receita não está acompanhando esse crescimento de uso. É esse descompasso específico que assustou o mercado, não queda de usuário.

A própria Google reconheceu que o Modo IA da Busca monetiza menos que o resultado tradicional. Analistas do UBS, Mizuho e D.A. Davidson voltaram a colocar no centro do debate o medo de que a IA esteja “canibalizando” a própria busca  a Mizuho estendeu essa preocupação até o YouTube. O economista brasileiro Leandro Guissoni, da FGV, explica o mecanismo de um jeito direto: agente de IA consegue completar várias etapas da jornada de consumo numa única interação, então parte da oportunidade comercial que antes gerava clique e anúncio simplesmente desaparece no meio do caminho  o Google capta menos valor por busca feita, mesmo com mais busca acontecendo.

O fluxo de caixa livre do trimestre ficou negativo em US$ 9,07 bilhões, bem pior que o déficit de US$ 2,7 bilhões que o mercado projetava. Vale uma nota de equilíbrio: nem todo mundo concorda que isso é mudança estrutural. Scott Devitt, da Rosenblatt Securities, diz que não é “mudança radical”  os 4 bilhões de usuário de busca do Google podem simplesmente virar usuário do Modo IA sem perda de base. Gil Luria, do D.A. Davidson, pede cautela antes de tirar conclusão definitiva de um trimestre só. E a Microsoft, que divulgou resultado no mesmo dia, ficou praticamente estável não foi um tombo generalizado de toda big tech de uma vez.

Intel e Amazon também sentiram o solavanco?

A Intel perdeu cerca de 30% num único pregão depois de sinalizar que não deve gerar mais caixa do que gasta em 2026. A Amazon fechou o acumulado de 12 meses com fluxo de caixa livre negativo em US$ 42,4 bilhões  contra US$ 14,8 bilhões positivos um ano antes , uma virada que a própria empresa atribui a um aumento de US$ 94,8 bilhões em compra de equipamento de IA. A publicidade da Amazon, que vinha crescendo 26% no trimestre anterior, cresceu só 12% dessa vez  menos da metade do ritmo recente.

O número que dá nome ao risco de longo prazo.

A Gartner projeta gasto global com IA de US$ 2,67 trilhões em 2026  alta de 49,5% sobre 2025 , com infraestrutura respondendo por cerca de US$ 1,48 trilhão disso. Olhando mais à frente: somando o que ainda será investido até 2030, donos de data center de IA precisariam de aproximadamente US$ 8,5 trilhões em receita acumulada pra justificar esse investimento com retorno de 12%. Só que a própria Gartner projeta, no ritmo de crescimento atual, receita real de aplicação de IA de no máximo US$ 3,6 trilhões no mesmo período  um hiato de quase US$ 5 trilhões entre o que precisa entrar e o que realmente deve entrar.

Se essa tendência persistir, a Gartner estima que mais de US$ 3,5 trilhões (podendo chegar a US$ 4 trilhões) em ativo de infraestrutura de IA corram risco de baixa contábil até 2030-2032 e a indústria, nesse ritmo, não deve atingir o retorno sobre capital investido assumido antes de 2032, na melhor das hipóteses. Will Sommer, analista da Gartner, chama isso de “cenário mais provável dado o ritmo atual”, mas não o único possível  ele aposta que o hiato mais provavelmente se fecha via redução de investimento em infraestrutura, à medida que empresas menores do setor (as “neoclouds”) se consolidam ou somem do mapa.

Quem está mais exposto, quem está mais protegido?

As “neoclouds”  empresas especializadas só em infraestrutura otimizada pra IA, como CoreWeave, Nscale e Lambda são as mais vulneráveis nessa conta: a Gartner projeta que mais de 80% delas deixem de operar de forma independente até 2030. O sinal já apareceu nos números de outubro: ações de CoreWeave, Nebius e IREN caíram mais de 30% só no mês, segundo a Reuters, e a IREN não dá lucro há três trimestres seguidos. Elon Musk, separadamente, previu que mais de 200 dessas empresas menores de infraestrutura de IA podem enfrentar sério problema financeiro.

Do outro lado, hyperscaler diversificado como a própria Amazon está mais protegido  consegue sustentar investimento pesado porque tem receita vindo de vários negócios ao mesmo tempo, não só de IA, e deve dominar o mercado de infraestrutura de IA como serviço, projetado em cerca de US$ 200 bilhões até 2030  fração pequena perto do tamanho total do investimento do setor, mas concentrada em quem tem caixa pra sobreviver ao ciclo.

A demanda de curto prazo continua real  esse é o contraponto que importa?

Vale fechar com o dado que evita simplificação fácil: a carteira de contrato da AWS chegou a US$ 578 bilhões no fim de setembro, contra US$ 496 bilhões três meses antes  crescimento rápido, sinal de demanda real e contratada, não hipotética. E, segundo a McKinsey, 80% dos profissionais dizem que a IA já melhorou a própria produtividade individual no trabalho. O problema aparece na conversão disso em resultado de empresa: só 37% das organizações relatam impacto real no EBIT, e apenas cerca de 6% são classificadas como “high performer” que de fato captura retorno financeiro claro desse investimento. A demanda de uso existe e é genuína; o lucro declarado, pra maioria das empresas, ainda não chegou.

O que eu vejo sobre!

Quando escrevi sobre esse tema pela primeira vez, o cenário era de tensão e desacordo ninguém sabia dizer com segurança se era bolha ou transição. Esse trimestre entregou o primeiro dado duro que pesa concretamente pro lado do medo de bolha, mas ainda não é veredito fechado: tem analista discordando, tem demanda de curto prazo genuína crescendo (AWS), e quem está mais exposto ao risco (as neoclouds pequenas) não é necessariamente o mesmo fornecedor de quem sua empresa usa hoje pra marketing ou atendimento. O recado prático não é “parar de investir em ferramenta de IA”  é escolher fornecedor com solidez financeira e evitar depender, de forma estratégica, de empresa pequena e pouco capitalizada que pode simplesmente não existir de forma independente daqui a poucos anos.