ARTIGO,  TECNOLOGIA

A Apple tirou o vermelho do Apple Music e jogou fora o ativo de marca mais raro que existe!

Tem rebranding que chega com festa, manifesto e vídeo emocionante. E tem rebranding que chega de fininho, escondido numa versão beta, e é descoberto por um designer curioso no X. O novo ícone do Apple Music é do segundo tipo.

No dia 13 de outubro, a Apple liberou para desenvolvedores o beta 4 do iOS 27.2. No meio das novidades, o ícone do Apple Music apareceu sem o vermelho que acompanhava o app há 13 anos. Agora é uma nota musical preta sobre fundo branco no modo claro, e branca sobre fundo preto no modo escuro. Quem espalhou primeiro foi o designer independente Andreas Storm, que publicou as variações no X.

A internet, claro, fez o que sabe fazer de melhor. “A pior mudança de logo de todos os tempos”, escreveu alguém. “Como você tira toda a cor de uma coisa e acha que está tudo bem?”, perguntou outro. Teve até quem ameaçasse migrar para o Spotify.

Eu não vou dizer que é a pior mudança de todos os tempos (a Jaguar agradece a gentileza). Mas, como publicitário e designer, acho que a Apple fez uma troca ruim: abriu mão de uma das coisas mais difíceis de construir em branding em troca de um visual limpinho que combina com o resto do sistema.

O que mudou, além do quadradinho na tela?

Não foi só o ícone. Segundo o 9to5Mac, a aba ativa dentro do app trocou o vermelho e o rosa pelo azul. Os widgets ganharam fundo preto liso. Na Biblioteca, os atalhos de Playlists, Álbuns, Artistas e Músicas ficaram em preto e branco.

A Engadget reparou em mais detalhes: a nota ficou mais inclinada para a esquerda, as cabeças das notas ficaram mais ovais, e o logotipo completo ganhou letras minúsculas com traço mais grosso. Existem ainda versões “Clear” e tingida do ícone.

Ou seja, não é um detalhe. É uma decisão de tirar a cor da marca de ponta a ponta. O próprio 9to5Mac resumiu assim: o novo ícone “remove a cor da marca”.

Vale o aviso: é beta. A Apple pode voltar atrás antes da versão final. Mas a direção está clara, e é ela que interessa aqui.

Cor é o ativo de marca mais difícil de conquistar.

Em 2023, a Ipsos e o estúdio JKR publicaram um estudo chamado “Be Distinctive. Everywhere.” Eles ouviram mais de 26 mil pessoas em 25 países e avaliaram 5.046 ativos de 523 marcas: logotipos, slogans, mascotes, cores e produtos. A pergunta era simples: esse elemento, sozinho, faz a pessoa lembrar da marca?

O resultado é um balde de água fria. Só 15% dos ativos chegaram ao nível máximo, o “Gold”, aquele que funciona sem ajuda nenhuma. E, entre todos os tipos, a cor foi a pior: apenas 4% das cores testadas alcançaram o Gold. Logotipos chegaram a 19%. Produtos, a 31%.

Traduzindo para o português de agência: é dificílimo uma marca ser dona de uma cor. Quase ninguém consegue. Quem consegue tem ouro de verdade nas mãos, porque a cor é reconhecida de longe, de canto de olho, numa tela pequena, antes de a pessoa ler qualquer coisa.

O vermelho do Apple Music não era o vermelho da Coca-Cola, claro. Mas, depois de 13 anos, era o jeito mais rápido de achar o app na tela do celular. E num mercado em que o principal concorrente é verde, vermelho contra verde era a briga visual mais simples do mundo. A Apple simplesmente saiu do ringue.

A moda do monocromático (e o risco de todo mundo ficar igual).

A Apple não está sozinha nessa. Em agosto, o Instagram apresentou seu novo logotipo de texto, o primeiro grande ajuste desde 2016. Adam Mosseri, chefe do Instagram, disse que o desenho ficou “mais limpo e mais moderno, com referências ao original”. A internet respondeu lendo “Instagzam” por causa do formato do “r”.

Aqui no blog eu já reclamei disso algumas vezes. Falei dos rebrandings minimalistas que deixam todo logo com a mesma cara e falei da Coca-Cola, que ficou tão consistente que ninguém mais diferencia a lata da Zero. O caso do Apple Music é o irmão mais novo dessa história: em nome de uma linguagem visual unificada, tira-se exatamente o que fazia a marca ser reconhecida.

Faz sentido do ponto de vista da Apple? Faz. Um sistema inteiro em que os ícones se adaptam ao modo claro, ao escuro e à versão tingida fica mais coerente. O problema é que coerência de sistema e distinção de marca são objetivos diferentes, e às vezes brigam. Quando o usuário pode pintar todos os ícones da mesma cor, a cor deixa de ser assinatura e vira configuração.

O que isso ensina para quem não é a Apple?

Aqui é onde eu quero chegar, porque a maioria de nós não tem o caixa da Apple para errar e consertar depois.

Primeiro: antes de mudar, faça um inventário dos seus ativos. Pergunte qual elemento as pessoas reconhecem sem ler o nome. Às vezes é a cor, às vezes é o formato da embalagem, às vezes é aquele mascote que o diretor acha brega. O estudo da Ipsos mostra que 65% dos ativos ficam no nível mais fraco, o Bronze. Se você tem um que funciona, proteja como se fosse o cofre da empresa.

Segundo: modernizar não é tirar. Dá para afinar traço, ajustar tipografia e melhorar a leitura no celular sem apagar o que as pessoas já guardaram na memória. O Instagram, pelo menos no discurso, tentou isso ao manter referências ao logo antigo.

Terceiro: escute o barulho, mas não se guie só por ele. Toda mudança de logo gera revolta nas primeiras 48 horas. A diferença é saber se a crítica é estranhamento (que passa) ou perda real de reconhecimento (que não passa). No caso do Apple Music, desconfio que seja a segunda.

Em Araçatuba ou em Cupertino, a lógica é a mesma. Quando um cliente chega na Art Publicidade querendo “deixar a marca mais clean”, a primeira pergunta que eu faço é: o que você está disposto a perder?

Minha Opnião!

Eu acho que a Apple vai manter o preto e branco e que daqui a seis meses ninguém vai lembrar da polêmica. As pessoas se acostumam. Mas se acostumar não é a mesma coisa que reconhecer. O app vai continuar sendo usado, só que um pouco mais difícil de achar, um pouco mais parecido com todos os outros, um pouco menos ele mesmo.

E num mundo em que todo mundo está tirando a cor para parecer moderno, a marca que tiver coragem de continuar colorida vai ser a mais moderna da prateleira.

E você, achou o novo ícone elegante ou sem graça? Se a Apple fosse sua cliente, você deixaria apagar o vermelho?