Agosto Lilás: sua marca mudou a cor do feed ou mudou alguma coisa de verdade?
Todo agosto, uma quantidade previsível de marcas troca a cor do logo pra lilás por alguns dias. Esse ano, essa troca cosmética pesa mais do que nos anteriores porque 2026 marca 20 anos da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006. E os números que vieram junto com essa data redonda são difíceis de ignorar: uma pesquisa recente mostrou que 54% das brasileiras relatam já ter sofrido alguma forma de violência coberta pela lei.
Isso não é estatística abstrata pra usar como legenda de post. É o tipo de número que deveria fazer qualquer marca parar e se perguntar: eu estou realmente fazendo parte da solução, ou só estou emprestando a cor do mês pra parecer que sim?
A história por trás do nome que virou lei.
Vale relembrar, porque muita gente conhece o nome sem saber a origem: Maria da Penha sobreviveu a duas tentativas de assassinato do próprio marido, em 1983 um tiro que a deixou paraplégica, e depois uma tentativa de eletrocução. O caso dela virou o marco que resultou, mais de duas décadas depois, na lei que hoje permite afastar o agressor de casa, proibir contato com a vítima, encaminhar pra abrigo especializado e incluir a mulher em programa oficial de proteção.
A campanha do Agosto Lilás também reforça um ponto que costuma passar batido: violência não é só física. A lei reconhece seis tipos física, psicológica, sexual, moral, patrimonial e vicária (aquela cometida contra os filhos ou pessoas próximas como forma de atingir a mulher). Boa parte dessas formas “não deixa marca visível, mas causa impacto profundo” o que explica por que tanta gente demora a reconhecer que está numa situação de violência.
Onde a comunicação de marca costuma errar?
A crítica mais direta que vi esse ano sobre o assunto resume bem o problema: “não é sobre mudar a cor do logo pra lilás. É sobre educação, responsabilidade e ação concreta.” Tratar uma campanha de conscientização como só mais um ajuste estético de feed sem nenhuma ação por trás é o que gera o efeito oposto do pretendido: em vez de reforçar a causa, reforça a percepção de que a marca só está surfando o calendário comercial do mês.
O problema não é participar. É participar sem lastro nenhum atrás da postagem.
O que realmente conta como ação, e não só estética.
A diferença entre ativismo de fachada e engajamento real de marca costuma estar em coisas bem concretas e, na maioria das vezes, baratas de implementar:
- Conteúdo educativo com fonte oficial não um post genérico, mas informação verificada, citando quem produziu o dado.
- Divulgação de canais de apoio reais, como o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) informação que pode literalmente ajudar alguém que está seguindo a marca naquele momento.
- Rodas de conversa internas com a própria equipe, não só conteúdo voltado pra fora.
- Treinamento de liderança pra saber reconhecer e acolher um caso, caso apareça dentro da própria empresa.
- Parceria com especialistas e organizações que já trabalham o tema em vez de a marca tentar “criar conteúdo” sozinha sobre um assunto delicado.
- Política interna de acolhimento algo que existe o ano inteiro, não só em agosto.
Repara que nenhum desses itens depende de orçamento de mídia grande. Depende de decisão institucional o que, ironicamente, é mais difícil de fingir do que uma arte de post.
Por que isso também é estratégico, não só “certo”?
Existe um argumento de longo prazo aqui, além do argumento ético: o consumidor de hoje reconhece cada vez melhor a diferença entre marca que participa de uma pauta social de forma consistente e marca que aparece só no mês “de moda” do calendário. Campanha de causa sem ação real por trás corre o risco de virar o oposto do pretendido motivo de descrédito, não de conexão.
Marca que quer entrar nesse tipo de pauta deveria se perguntar, antes de qualquer arte de post: e nos outros onze meses do ano, o que a gente faz sobre isso?
O ponto de vista que eu defendo aqui!
Aos 20 anos da Lei Maria da Penha, com mais da metade das brasileiras relatando ter vivido alguma forma da violência que essa lei cobre, o mínimo que uma marca pode fazer é tratar agosto como ponto de partida pra uma ação que continue depois que a cor do feed voltar ao normal não como o fim de uma obrigação anual cumprida.

