Black Friday 2026 vai ter menos comprador e quem comprar vai gastar mais, isso muda seu planejamento!
Semana passada escrevi aqui sobre como 2026 está sendo um ano de orçamento de marketing sob pressão e CFO mais cauteloso. Pois bem: essa mesma cautela apareceu, quase que em espelho, do outro lado do balcão. Uma pesquisa recente do Google sobre intenção de compra na Black Friday 2026 (que cai em 27 de novembro este ano) traz um dado que devia estar no topo do planejamento de qualquer marca que vende no Brasil e que contraria a lógica simples de “ano ruim, gente compra menos”.
O dado que não bate com o senso comum.
Apenas metade dos brasileiros entrevistados pretende comprar na Black Friday 2026 contra 61% no ano passado. Isso, isoladamente, pareceria confirmar a leitura óbvia de ano mais apertado. Só que, entre quem pretende comprar, 41% esperam gastar mais do que gastaram no ano anterior.
Ou seja: o mercado não está encolhendo de forma uniforme, está se selecionando. Menos gente decide entrar no jogo, mas quem decide entrar não está entrando com o pé atrás está indo com intenção de gastar mais, não menos. É uma diferença importante pra quem planeja campanha: a estratégia de “abrir pra todo mundo com desconto raso” tende a funcionar pior este ano do que a estratégia de identificar quem já decidiu comprar e fazer a oferta certa pra essa pessoa específica.
Quem sobrou no jogo está mais preparado e mais exigente?
O comprador que continua nessa Black Friday não é o impulsivo de outras edições. Os números mostram um comportamento de “smart shopper”: 80% dos consumidores sempre procuram desconto, 73% buscam ativamente a melhor oferta disponível, e 72% monitoram promoção com regularidade, não só na própria data.
A antecipação também é grande: 48% já têm lista de compra pronta antes mesmo das campanhas começarem, e 44% já iniciaram pesquisa de preço com antecedência. Do lado da fidelidade, só 30% já sabem de antemão em qual loja vão comprar os outros 70% estão, na prática, disputáveis até o último momento.
Tem também um dado de restrição real que ajuda a explicar a seletividade: 51% dos consumidores têm renda comprometida. Isso não impede o gasto, mas explica por que ele fica mais calculado e por que 81% das compras de Black Friday já acontecem puxadas por algum tipo de incentivo, não por impulso puro. Desconto direto lidera as preferências, seguido de frete grátis e parcelamento.
A IA já está no meio do processo de decisão?
Aqui entra um fio que já puxei em outro artigo aqui do blog, sobre IA generativa virando personagem do funil de compras: na Black Friday 2026, isso deixou de ser tendência distante e virou comportamento mensurável. 15% dos consumidores já dizem usar IA pra pesquisar produto e acompanhar preço mais que o triplo dos 5% registrados em 2024. Olhando de forma mais ampla, 57% das jornadas de compra analisadas envolveram IA em algum ponto da decisão, e 75% de quem usa busca por IA relata mais confiança na escolha final.
Na prática, isso quer dizer que uma fatia relevante do público que vai comprar na Black Friday 2026 vai chegar até sua marca (ou não chegar) porque um assistente de IA recomendou ou deixou de recomendar reforçando que aparecer bem pra esse tipo de busca já é parte do jogo, não um extra.
O que muda no planejamento, sabendo disso?
Com menos gente decidida a comprar, mas com intenção de gasto maior entre quem decide, a lição prática é resistir à tentação de “descontar mais forte pra compensar” não é isso que os dados sugerem que funciona. Um exemplo concreto: em eletrônicos, oferecer o conjunto certo de benefício (não só desconto no preço, mas frete grátis e parcelamento bem estruturado juntos) elevou o ticket médio de R$ 1.360 pra R$ 1.678 alta de 23% sem depender de desconto mais agressivo.
Isso sugere um caminho mais preciso do que amplo: personalizar o incentivo por categoria de produto, comunicar com clareza por que aquela oferta é vantajosa de verdade (o consumidor pesquisou antes, ele vai notar se não for), e concentrar esforço em quem já demonstrou intenção via lista de espera, aviso de queda de preço, remarketing pra quem já pesquisou em vez de tentar converter quem ainda nem decidiu entrar esse ano.
Do lado operacional, o prazo de preparação recomendado continua o mesmo de sempre: cerca de 60 dias antes da data, ou seja, a partir de agora em setembro revisão de estoque, negociação com fornecedor, teste de plataforma, estruturação de campanha e, se for o caso, contratação temporária (só em 2025 foram abertas 118 mil vagas desse tipo no varejo).
O que eu vejo, junta isso com o que já vinha discutindo sobre orçamento de marketing mais apertado e você tem um recado bem direto: 2026 não é ano de tentar agradar todo mundo com desconto raso torcendo pra volume compensar margem. É ano de saber exatamente quem já decidiu comprar a metade que ainda pretende participar e ir atrás dela com oferta pensada, não com desconto genérico. Cautela, de novo, não é recuar; é mirar melhor com menos munição.


