ARTIGO,  COMPORTAMENTO

Creators substituindo agências? O que muda quando o criador vira o meio, não só a ponta.

Tem uma pergunta que já rondou toda mesa de agência nos últimos dois anos, mas que ninguém gosta de fazer em voz alta: se a marca pode conversar direto com o criador, negociar direto, aprovar direto e às vezes até vender direto através dele pra que ela ainda precisa de mim, no meio?

Os números de 2026 tornam essa pergunta impossível de ignorar. Um estudo da Primetag mostrou que o volume de conteúdo patrocinado no Brasil cresceu 50% em 12 meses. Mais de 50 mil marcas já usaram influenciadores só no Instagram brasileiro. E o país tem hoje 1,28 milhão de criadores com mais de 10 mil seguidores gente suficiente pra cobrir qualquer nicho, de finanças a jardinagem, sem precisar de intermediário nenhum.

Só que a resposta pra pergunta lá de cima não é “a agência morreu”. É mais interessante e mais desconfortável do que isso.

O criador não é mais só a ponta, é o meio?

Durante muito tempo, o influenciador ocupava um lugar bem definido no fluxo publicitário: a agência planejava, a agência negociava, a agência produzia o briefing e o criador entrava no fim da linha, como veículo de entrega, parecido com um outdoor ou um intervalo comercial. Ele era a ponta.

O que mudou em 2026 é que o criador virou, ele mesmo, o meio inteiro. Segundo a Noodle, a creator economy brasileira está entrando numa fase de “institucionalização”: o criador deixou de ser só mídia e passou a ser infraestrutura de negócio ele produz, distribui, converte por afiliação (empurrando venda direta via TikTok Shop e programas parecidos) e, em muitos casos, também mede o próprio resultado com ferramentas profissionais de compliance e receita.

Ou seja: o que antes era uma cadeia agência pensa, agência compra mídia, criador executa virou, pra um número crescente de marcas, um caminho direto: marca fala com criador, criador entrega conteúdo, distribuição e conversão, tudo dentro da mesma parceria. É esse “encurtamento” que está fazendo o mercado de creator economy no Brasil saltar de US$ 5,47 bilhões em 2025 pra uma projeção de US$ 33,5 bilhões até 2034.

Seis sinais de que isso não é modinha.

Dá pra descartar isso como hype passageiro? Os dados de 2026 sugerem que não. Seis movimentos mostram que o mercado está se reorganizando de verdade:

  • Embaixadores contínuos, não parcerias pontuais. Marcas estão trocando o “post único” por relacionamento de longo prazo com o mesmo criador  o que parece cada vez mais com contratar um funcionário de marketing do que comprar uma mídia.
  • Afiliação crescendo forte. Criador não entrega só alcance, entrega venda rastreável, com comissão. Isso muda a conversa de “quanto custa” pra “quanto vende”.
  • Conteúdo mais longo e cuidado. Menos vídeo curto genérico, mais série, podcast, videocast  produção que, ironicamente, se parece cada vez mais com o que uma produtora ou agência criativa faria.
  • IA nos bastidores, não na frente. Ferramentas de IA ajudam a achar o criador certo e analisar campanha mas o mercado está rejeitando criador sintético óbvio. Autenticidade virou métrica de negócio, não só discurso.
  • Presença física importando de novo. Encontro, evento, podcast ao vivo o oposto do conteúdo 100% automatizado, e um lembrete de que “criador” hoje é sinônimo de comunidade real, não só de audiência de tela.
  • Mídia paga turbinando o orgânico. Com o alcance espontâneo caindo, marcas estão investindo dinheiro de mídia paga pra impulsionar o conteúdo do próprio criador o que, de novo, é um trabalho que tradicionalmente passava pela mesa de uma agência de mídia.

Setores que nunca foram terreno natural de influenciador também estão entrando com força: Automotivo (+177%), Tecnologia & IA (+138%), Família & Parentalidade (+81%). Isso indica que não é só marca de moda e beleza testando esse caminho é o mercado inteiro reconfigurando onde coloca o orçamento.

Onde a agência ainda tem motivo pra existir?

Dito tudo isso, seria preguiça intelectual (e um pouco de sensacionalismo) dizer que agência virou peça de museu. O que os seis pontos acima mostram, na verdade, é que o trabalho que sobrou pra quem pensa estratégia é mais difícil, não mais fácil:

Alguém ainda precisa decidir qual criador entre 1,28 milhão realmente conversa com aquele público. Alguém precisa negociar contrato de longo prazo sem virar refém de um único nome. Alguém precisa medir se a afiliação está trazendo venda de verdade ou só clique vazio. E, principalmente: alguém precisa garantir que a marca continue tendo uma voz coerente, quando ela está sendo contada por dezenas de bocas diferentes ao mesmo tempo.

Esse “alguém” pode se chamar agência, pode se chamar consultoria, pode se chamar um profissional de marketing dentro da própria empresa. Mas o papel de estrategista não sumiu ele só deixou de ser dono exclusivo da execução.

O que isso significa pra quem contrata?

Se você é dono de negócio pequeno ou médio, a leitura prática desse movimento todo é otimista: você não precisa mais de um orçamento de agência grande pra ter presença relevante. Um criador certo, bem escolhido, com relação de longo prazo, pode fazer o trabalho que antes exigia um contrato anual de mídia.O risco, claro, é trocar um erro pelo outro trocar “depender cegamente de agência” por “depender cegamente de um único criador”, sem estratégia nenhuma por trás. A pergunta que fica não é mais “agência ou influenciador”. É: quem, na sua operação, está pensando estratégia enquanto todo mundo mais compete pela execução?