ARTIGO

O mercado de trabalho é cruel com quem passa dos 40 e os números provam que não é imaginação!

Esse texto eu escrevo com mais incômodo pessoal do que o normal por aqui, porque trabalho numa indústria publicidade  que, segundo pesquisa da própria categoria, está entre as que mais praticam esse tipo de preconceito. Vou tentar não deixar isso virar desabafo solto; vou deixar os números falarem primeiro, porque eles já são duros o suficiente sozinhos.

Os números que provam que não é imaginação!

Um estudo global da Michael Page, o Talent Trends 2025 (36 países, cerca de 50 mil profissionais ouvidos entre novembro e dezembro de 2024), encontrou que 41% dos profissionais brasileiros dizem já ter sofrido etarismo ao longo da carreira acima da média global (36%) e da média da América Latina (35%). O Brasil discrimina mais por idade do que o resto do mundo, em pesquisa com metodologia e amostra grande o suficiente pra não ser estatística isolada.

Dentro da publicidade especificamente, a pesquisa “Fala, 42+”, feita pela Associação Riograndense de Propaganda, encontrou que mais de 60% dos publicitários acima de 42 anos já sofreram algum tipo de preconceito ligado à idade. Mais de seis em cada dez. Na minha própria indústria.

E não é só sensação de injustiça pontual: uma pesquisa da AARP, organização americana focada em direitos de pessoas mais velhas, encontrou que dois terços dos trabalhadores com 50 anos ou mais já presenciaram ou sofreram etarismo no trabalho, e 22% sentiram pressão explícita pra deixar o próprio emprego por causa da idade.

O “botox de currículo” e o detalhe mais cruel de todos.

Surgiu um termo pra uma prática que virou comum: “botox de currículo”, a edição de candidatura pra parecer mais jovem removendo ano de formatura, tirando primeiro emprego da lista, escondendo cargo de nível sênior, trocando foto de perfil. Uma pesquisa com 4.263 usuários de uma plataforma de candidatura encontrou que 42% já alteraram currículo ou LinkedIn pra esconder a idade ou parecer menos experiente, e 72% dessas pessoas usaram IA pra fazer a edição.

Tem uma camada de desigualdade dentro da desigualdade: entre mulheres de 45 anos ou mais, 53% fizeram esse tipo de alteração, contra 35% dos homens na mesma faixa etária  mulher mais velha enfrenta ainda mais pressão pra esconder a própria idade do que homem na mesma situação.

E aqui está o dado que elimina qualquer dúvida sobre se isso é exagero ou percepção equivocada: 43% das pessoas que editaram o currículo pra parecer mais jovem conseguiram mais entrevista depois disso. A estratégia funciona. Esconder quem você é, profissionalmente, aumenta sua chance de ser considerado. Isso não é evidência de insegurança de quem edita o currículo é evidência de que o preconceito do outro lado é real o suficiente pra compensar o risco de mentir.

Quando o próprio algoritmo discrimina?

A discriminação por idade já chegou no software de recrutamento, às vezes de forma documentada judicialmente. A empresa iTutorGroup pagou US$ 365 mil em acordo depois que sua ferramenta de recrutamento por IA rejeitava automaticamente mulher acima de 55 anos e homem acima de 60. E tem um processo em andamento nos Estados Unidos, Mobley v. Workday, em que um profissional de TI com mais de 40 anos alega ter sido rejeitado em mais de cem candidaturas filtradas por ferramenta da Workday  algumas em menos de uma hora.

O mecanismo raramente é uma regra explícita tipo “rejeite quem tem mais de 50”. É mais sutil: o modelo aprende com variável que não é idade, mas se correlaciona com ela  data de formatura, quantidade de ano de experiência, período sem atividade no currículo (licença, pausa), habilidade tecnológica associada a geração específica. Se o modelo foi treinado com perfil de quem a empresa contratou no passado, ele tende a repetir esse padrão  penalizando quem foge dele, mesmo sem nenhuma intenção explícita de discriminar. E como várias empresas usam a mesma plataforma de triagem, um viés incorporado numa ferramenta só se repete em processo seletivo de empresa diferente, multiplicando o efeito.

A ironia que fecha o círculo: quem discrimina também ignora o próprio cliente?

Aqui está a parte que, pra mim, é a mais revoltante de admitir sobre a própria indústria. Quase metade da população brasileira tem mais de 40 anos. Esse grupo concentra poder de compra real: 55% são responsáveis principais pelas contas da casa, 78% lideram a compra de supermercado, 64% decidem sobre remédio e produto de saúde, e 38% ainda sustentam financeiramente outra pessoa.

E mesmo assim, segundo pesquisa da MindMiners (Original 40+), 51% considera que a publicidade não representa adequadamente pessoa madura, só um terço se sente representado nas campanhas atuais, 77% acha que envelhecer ainda carrega preconceito real no Brasil, e três em cada dez consumidores já pararam de comprar de marca que retrata esse público de forma caricata ou negativa. 41% não consegue sequer citar uma marca associada a estilo de vida saudável e longevo.

E o dado que destrói de vez o estereótipo usado pra justificar tanto a discriminação na contratação quanto o abandono publicitário: 80% desse público se sente confortável com tecnologia, e metade já usa ferramenta de inteligência artificial no dia a dia. O motivo mais repetido pra “não servir”, “não acompanha tecnologia” simplesmente não bate com a realidade medida.

O ponto de vista que eu defendo aqui!

A indústria em que trabalho discrimina, pela própria pesquisa dela, mais da metade dos profissionais que passam dos 42 anos e, ao mesmo tempo, ignora ou trata com caricatura o público que mais controla gasto de casa no Brasil. Não é coincidência, é o mesmo preconceito aplicado duas vezes: dentro da empresa, contra quem trabalha; fora dela, contra quem compra. Nenhum dos dois lados se sustenta em fato  nem “pessoa de 40+ não acompanha tecnologia” (ela acompanha), nem “pessoa de 40+ não tem poder de compra que justifique atenção” (ela tem, e muito). O que sobra, tirando o mito, é custo: profissional mais jovem custa menos, reclama menos, aceita mais e é mais barato manter esse discurso de “não se encaixa mais” do que admitir que a conta é essa.