ARTIGO,  COMPORTAMENTO

A Geração Z trocou a foto perfeita do celular por uma Cybershot de 2008 e isso diz muito sobre o cansaço da internet!

Se você tem mais de 35 anos, provavelmente tem uma câmera digital compacta esquecida em alguma gaveta. Daquelas prateadas, com cartão de memória de 2 GB e bateria que não segura carga nem com reza. Pois é: ela pode estar valendo mais do que você imagina.

A Geração Z descobriu as Cybershots, as PowerShots, as Coolpix e companhia. E não é piada de TikTok. Em Fortaleza, o dono de uma assistência técnica de câmeras que funciona desde 2000 contou ao jornal O Povo que a idade média dos clientes caiu de algo entre 30 e 50 anos para cerca de 24, com adolescente no balcão. Uma compacta usada sai a partir de R$ 600.

Seiscentos reais. Por uma câmera que, em tese, perde de lavada para qualquer celular intermediário. A pergunta interessante não é “por que eles estão comprando isso?”. É “do que eles estão fugindo?”.

Não é nostalgia. Eles nem viveram essa época.

O primeiro impulso é chamar de saudosismo. Só que boa parte dessa turma nasceu quando essas câmeras já estavam saindo de cena. Ninguém sente saudade do que não viveu.

O que eles buscam é outra coisa. Em reportagem da Forbes Brasil publicada em setembro, Maurício Namba, dono da Cine Câmera Service, conta que os clientes de 20 a 25 anos procuram imagens menos processadas e mais “imperfeitas”: granulação, cores desbotadas, tons quentes. A professora de fotojornalismo Simone Marinho fala dos “rituais” que encantam essa geração: escolher o filme, ajustar o ISO, esperar a revelação para ver o resultado.

Esperar. Numa geração que cresceu com tudo instantâneo, a espera virou luxo. E o filme virou luxo mesmo: segundo a mesma reportagem, o rolo que custava uns R$ 30 alguns anos atrás hoje chega a R$ 200.

O cansaço tem números?

O movimento não está só na fotografia. O Xataka listou em março o pacote completo dessa onda: iPods, câmeras analógicas, discos de vinil e até os “dumbphones”, aqueles celulares simples que só ligam e mandam SMS.

O vinil, aliás, é o que melhor mostra isso no Brasil. Segundo a Pro-Música Brasil, o mercado fonográfico faturou R$ 3,96 bilhões em 2025, alta de 14,1%. A mídia física ainda é menos de 1% disso, mas cresceu 25,6% puxada pelo vinil. É pouco em volume, mas é muito em significado.

E tem o lado do cansaço declarado. Uma pesquisa da Toluna divulgada pelo Meio & Mensagem em janeiro mostrou que 27% dos brasileiros queriam diminuir o tempo nas redes sociais em 2026, com o Instagram no topo da lista de plataformas a cortar (65%).

Agora coloca isso ao lado de outro dado: o Brasil tinha 150 milhões de perfis ativos em redes sociais em outubro de 2025, cerca de 70% da população, segundo o DataReportal. A gente não vai largar o celular. Mas está claramente procurando uma válvula de escape dentro dele e fora dele.

A foto perfeita ficou chata?

Aqui entra o olhar de quem trabalha com imagem todo dia. O celular ficou tão bom em corrigir tudo que as fotos ficaram parecidas. Pele lisa, céu azul turbinado, HDR em tudo. Junta isso com filtros, templates e agora imagens geradas por IA, e o feed vira um grande banco de imagens com a cara de ninguém.

O professor de cinema Sidney Simplicio, da UFC, disse ao O Povo algo nessa linha: a sociedade está saturada de imagens perfeitas e repetitivas do smartphone. Eu concordo e vou além. Quando tudo é perfeito, o perfeito deixa de chamar atenção. O olho passa direto.

A foto granulada da Cybershot, com flash estourado e data laranja no canto, faz o contrário. Ela parece verdade. Parece que alguém estava lá. E isso, em 2026, vale mais do que nitidez.

O recado para quem faz marketing.

Se você é marca, agência ou social media, preste atenção: o público jovem está pagando caro, literalmente, para ter imperfeição. Isso diz muito sobre o que ele quer ver no seu conteúdo também.

Não estou dizendo pra jogar fora o fotógrafo e postar tudo tremido. Estou dizendo que o conteúdo polido demais começa a parecer anúncio, e anúncio que parece anúncio é pulado. Bastidor real, foto de evento sem tratamento pesado, gente de verdade no lugar do banco de imagens: isso conversa melhor com quem está cansado do feed de plástico.

E tem uma oportunidade de negócio escondida aí. Assistência técnica, laboratório de revelação, brechó de eletrônicos, loja de discos, oficina de fotografia analógica. Coisas que pareciam mortas estão ganhando uma segunda vida, inclusive no interior.

No fim, a gente quer sentir que algo é real!

A própria Simone Marinho lembra, na Forbes, que o smartphone vai continuar sendo a câmera do dia a dia. Concordo. Ninguém vai fotografar o boleto com uma Cybershot. Mas o fato de uma geração inteira estar pagando pra esperar, pra errar e pra ter menos controle é um sintoma que merece atenção.

Talvez o próximo grande diferencial não seja a melhor câmera, o melhor filtro ou a IA mais esperta. Talvez seja simplesmente parecer humano.

E você, ainda tem aquela câmera na gaveta? Vai vender, vai voltar a usar ou vai fingir que não leu este texto?