A Coca-Cola ficou mais Coca-Cola e agora ninguém sabe qual lata é a Zero!
A Coca-Cola ficou mais Coca-Cola e agora ninguém sabe qual lata é a Zero!
Você já abriu a geladeira da padaria, pegou a lata vermelha no automático e só no primeiro gole percebeu que levou a errada? Se isso aconteceu com você nos últimos meses, calma. Você não está ficando distraído. Pode ser culpa do design.
Em julho, a Coca-Cola apresentou uma nova identidade visual global guiada por uma frase que parece saída direto de uma reunião de briefing: “make Coca-Cola more Coca-Cola”. Deixar a Coca-Cola mais Coca-Cola. Três meses depois, dá pra dizer que a missão foi cumprida com sobra. Tanto que muita gente não consegue mais diferenciar a Coca tradicional da Zero.
Hoje mesmo, 11 de outubro, a Creative Bloq publicou uma matéria dizendo que o rebrand ainda causa confusão três meses depois do lançamento. Uma comissária de bordo australiana postou no TikTok que tinha perdido a conta de quantas Cocas erradas entregou naquela semana. E, nos comentários, apareceu o ponto que deveria tirar o sono de qualquer designer de embalagem: pessoas com diabetes dizendo que dependiam das letras pretas para reconhecer a Zero.
Como publicitário e designer, eu entendo a lógica da Coca. E é justamente por entender que quero falar desse caso.
O que mudou, afinal?
O anúncio saiu em 20 de julho de 2026. A empresa chamou o projeto de um sistema visual único para mais de 200 mercados, com implantação começando pela América Latina, Europa, Oriente Médio e Ásia. A América do Norte fica para 2027. Ou seja: o Brasil está entre os primeiros a receber as latas novas.
Não é um redesign do zero. É um refresh que coloca mais volume nos ativos que a marca já tem: o vermelho e branco, a onda (que eles chamam de Dynamic Ribbon), o selo quadrado Arden Square e a famosa letra cursiva Spencerian. A identidade foi desenvolvida pela agência JKR, a mesma que reconstruiu a KFC em torno do balde, e o sistema de embalagens ficou com o estúdio The SUPERULTRARARE. De quebra, a Coca lançou um Brand Center e ferramentas de inteligência artificial para agências e times internos manterem tudo dentro da linha.
Na Zero Açúcar, as mudanças foram: a expressão “Zero Açúcar” em letra maior, uma faixa preta maior no centro da lata e a tampa preta mantida nas garrafas PET. O que saiu de cena foi a tipografia preta que diferenciava a Zero da versão tradicional. O preto ficou só na faixa e na tampinha.
O vice-presidente global de design da empresa, Rapha Abreu, resumiu a intenção assim: “one seamless visual identity”, uma identidade visual sem costuras, para entregar uma experiência de marca reconhecível. Bonito no deck. Na geladeira, a história é outra.
Consistência é virtude, até virar problema.
Vamos ser justos. Do ponto de vista de construção de marca, a decisão faz todo sentido. A Coca tem alguns dos ativos visuais mais valiosos do planeta, e reforçar esses ativos em todos os pontos de contato é o que qualquer manual de branding recomenda. Quanto mais você repete os mesmos códigos, mais rápido o cérebro reconhece a marca.
O problema é que embalagem tem dois trabalhos, e não um. O primeiro é dizer “eu sou a Coca-Cola”. O segundo é dizer “eu sou a Coca-Cola que você quer”. O novo sistema ficou excelente no primeiro trabalho e piorou no segundo.
E tem um detalhe que muita empresa esquece: código de cor aprendido é patrimônio do consumidor, não só da marca. A Coke Zero nasceu em 2005 com visual preto e, ao longo de mais de vinte anos, as pessoas aprenderam uma regra simples: preto é sem açúcar. Quando você tira esse atalho, quem paga a conta é quem compra. Ninguém lê rótulo na geladeira do boteco. A gente bate o olho e pega.
Foi descuido ou foi estratégia?
Aqui a conversa fica mais interessante. Na Austrália, o diretor de criação Mikey Hart, da Hulsbosch, disse ao site B&T que “não é por acaso” que as linhas entre as versões ficaram borradas. A leitura dele: a Coca vem há cerca de dez anos aproximando todas as variantes da marca-mãe e tirando o açúcar do centro da conversa. Ele chega a prever que, no fim, Coca-Cola vai ser simplesmente a Coca Zero. No Reddit, a teoria é parecida: confundir de propósito para migrar o consumidor aos poucos.
Precisa dizer que a Coca nunca afirmou que pretende tirar a versão com açúcar de linha. Inclusive lançou recentemente uma versão com açúcar de cana nos Estados Unidos. E o próprio Hart lembra da New Coke, de 1985, como exemplo do que acontece quando uma marca trata o consumidor como se ele não fosse perceber.
Minha opinião? Se foi estratégia, é esperta e um pouquinho sorrateira. Se foi descuido, é uma falha de usabilidade numa das empresas que mais investem em design no mundo. Nos dois casos, a pessoa que pega a lata no balcão parece não ter sido convidada para a reunião.
E aqui no Brasil?
Por aqui, o assunto rendeu manchete do tipo “Coca Zero vai acabar?”. Não vai. A fórmula continua igual, nenhum produto sai de circulação e as embalagens velhas e novas vão conviver nas prateleiras durante a transição. Mas o simples fato de essa pergunta virar notícia já é um sintoma. Quando o público precisa de um portal explicando a sua embalagem, alguma coisa não está comunicando.
E pense no contexto brasileiro de compra: geladeira de padaria com porta embaçada, isopor de praia, ambulante no estádio, fotinho de 100 pixels no app de delivery. É o pior cenário possível para diferenças sutis. A faixa preta pode ser óbvia numa apresentação em tela 4K. No balcão do bar, com luz amarela e pressa, ela some.
O que fica para quem cuida de marca (e não é a Coca)!
Você não precisa ter o orçamento da Coca para aprender com o tropeço dela. Algumas lições que valem para qualquer linha de produtos, do refrigerante ao queijo da cooperativa da sua cidade:
- Teste a embalagem onde ela vai viver: na gôndola, na geladeira, na mão molhada, na miniatura do iFood. Não só no mockup.
- Antes de mexer num código de cor, descubra se ele virou hábito do consumidor. Se virou, você não está mudando um detalhe, está mudando um comportamento.
- Acessibilidade não é perfumaria. Contraste, tamanho e diferenciação importam muito para quem tem baixa visão, daltonismo ou uma restrição de saúde.
- Consistência serve às pessoas, não ao manual de marca. Quando as duas coisas brigam, quem tem que ganhar é a pessoa.
No fim, o caso da Coca é um lembrete de que design não é só fazer a marca parecer ela mesma. É ajudar alguém a fazer uma escolha. E uma marca que fica tão igual a si mesma que o cliente leva o produto errado não ficou mais forte. Ficou mais confusa.
E você, já levou a Coca errada pra casa? Ou acha que tudo isso é frescura de designer?


